A Advogada que carregou pedras e adotou um Dinossauro: As lições de Margareth Zanardini na Era da IA

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Com 45 anos de carreira, a curitibana conhecida como «Mãe Jurídica Combativa» não apenas aceitou o apelido de «jurássica», como passou a utilizar um dinossauro nas redes sociais, o Dr. Justus. Com ele, ensina que advogado com «A» maiúsculo é autêntico e não terceiriza tudo para a IA.

Em 1981, quando a Inteligência Artificial engatinhava na ficção científica, Margareth Zanardini já lembrava que carregara pedras em 1976. Literalmente. Como estagiária, precisava colocar pedras dentro de malotes de processos para atingir o peso mínimo exigido pelas viações de ônibus rumo ao interior do Paraná. Hoje, essas pedras repousam em seu escritório ao lado do icônico «Dr. Justus».

O mascote nasceu de uma provocação: durante uma entrevista ao vivo, um apresentador anunciou que traria uma «advogada jurássica». Em vez de se ofender, ela sorriu, abraçou o termo e o transformou em uma marca registrada. Esta é Margareth Zanardini: uma profissional que devora adversidades e as devolve com bom humor para ensinar que advogado raiz não é termo ofensivo. Aliás, sempre se apresenta como “uma advogada com quase meio século de atuação e energia de recém-formada”.

QUANDO A GRATIDÃO NEM ESTAVA NA MODA

Atualmente, os estudos neurocientíficos comprovaram a importância de a pessoa ser grata: ela aprendeu muito cedo. Essa capacidade de ressignificar o caos veio de berço; cresceu em um ambiente onde o intelecto e a resiliência eram a tônica. Seu pai a ensinou a lutar, a buscar a excelência e a relevar o machismo, encarando-o como uma mera ignorância histórica. Sua mãe a ensinou a encontrar a vantagem em qualquer circunstância. Já o pai afirmava que o pior defeito no ser humano é a ingratidão; por isso, amava tanto os cachorros, sempre capazes de perdoar seus tutores imediatamente após uma bronca.

Lia desde cedo Freud e Balzac, o que a fez solitária e chamada de esquisita (hoje seria classificado como bullying), mas ela transformou isso em fortaleza. Aprendeu que, se você é inteligente, provavelmente será um pouco, ou muito, estranho. Abraçou a singularidade. Criticada e aplaudida, chamou a atenção da imprensa nacional em casos polêmicos que a alçaram à categoria de sua marca registrada: “combativa”.

O «NÃO» ÀS ALGEMAS DE OURO

A vida impõe testes de lealdade aos nossos princípios com promessas de segurança. Aos 24 anos, recém-formada, Zanardini se deparou com as famosas «algemas de ouro». Recebeu o convite para ser sócia de um escritório fora de Curitiba e, simultaneamente, uma vaga na banca mais prestigiada da capital paranaense. Ela disse não para os dois.

No fundo de sua alma combativa e sonhadora, ela se negou a ser apenas «a moça que trabalha com…». Queria ser ela mesma, a Dra. Margareth Zanardini, mas tinha um «pequeno problema»: nenhum tostão. O salto de fé foi financiado pela confiança de um ex-professor, depois padrinho (Ruy Barbosa Correa Filho, a quem ela é sempre grata), que foi seu fiador em uma pequena sala no centro da cidade por apostar em sua capacidade. (Havia elogiado seu trabalho já no primeiro ano do curso e indicado para que fosse publicado e para que ela estagiasse com o então Diretor da Faculdade). Abriu seu primeiro escritório com móveis usados e, quando questionada como arranjaria clientes, ela respondia com o otimismo e a fé que sempre manteve: “Deus vai me mandar”. Ele sempre mandou. E enviou, inclusive, já de início, proeminente pessoa com centenas de processos.

Ali iniciava sua trajetória de garra e amor ao Direito. Mas, mais do que isso, de abraçar não a causa, mas a dor do cliente. Seu principal capital foi a ousadia, fazendo networking na raça, movida pelo instinto de sobrevivência. Queria e conseguiu dar valor ao seu próprio nome. Passou a aparecer na imprensa porque convocava jornalistas para dar sua opinião; escrevia para vários jornais, até que o principal pediu-lhe exclusividade.

A EXPLOSÃO DO DIGITAL – CAMINHANDO SOBRE A LAVA DA NOVA ERA NUM PARQUE DE DIVERSÕES

Enquanto muitos profissionais de sua faixa etária abandonaram a advocacia porque não conseguiram sobreviver ao evento quase sísmico do vulcão da internet, Margareth se pôs a estudar, até porque, diz ela, isso é “o maior parque de diversões de uma mente inquieta”. Para acalmar-se, assiste a aulas não apenas de Direito, mas também de saúde integrativa, e tudo o que consegue acalmar sua sede de atualização.

Com o advento da COVID-19, então, adquiriu mais cursos do que conseguiria assimilar, entrou em mentorias em que todos ou quase todos os demais poderiam ser seus netos e lançou-se nas redes sociais no intuito de ensinar os jovens advogados, a quem ela chama de “criançada”, a não agirem no impulso, a se utilizarem de recursos como arma básica de advogado combativo e a não utilizarem a Inteligência Artificial como substituta, apenas como auxiliar.

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Dra. Margareth Zanardini

DE DANOS DO AMOR A ARMAS BÁSICAS

O tempo que a pandemia proporcionou (ela não parou de trabalhar e exortou os clientes a serem atendidos na parte externa do escritório, que fica próximo a um parque) foi o suficiente para criar seu livro “Os danos do Amor, dos namoros intencional ou diferenciado até que o litígio ou a morte os separe”, no qual, ousadamente (sempre a ousadia), além de mostrar como se evitar danos materiais nos relacionamentos afetivos, sugere que não se use mais o termo namoro qualificado. Mandou-os para o STJ e espera que sua tese seja acatada. Porque, para ela, a palavra «qualificada» não pode ser usada para namoros que não têm intenção de formar família: “De qualificado não tem nada”.

Também fez um manual para estudantes chamado “Armas Básicas para Advogados Combativos”, porque, para ela, advogado que é advogado sabe recorrer às instâncias superiores, e isso precisa ser ensinado nas faculdades, sendo totalmente contra (“eu sou rio acima”) a cultura do acordo a qualquer custo, porque isso é muito prejudicial para quem é mais fraco, o chamado hipossuficiente, que é exortado a acabar com o processo em prol da “pacificação social” e das estatísticas que só favorecem o sistema, mas não as pessoas.

O QUE A IA NÃO ENSINA – COMO PARECER ADVOGADO MESMO ANTES DE FALAR

Hoje, a persona da «Mãe Jurídica Combativa» é maternal no acolhimento, mas absolutamente implacável com a mediocridade e as desculpas de quem busca o sucesso com o simples clique de um botão. Há pouco tempo, lançou e-books “Bê-á-Bá do Processo Civil – O que a I.A não fará por você: da petição inicial até a sentença” e “Bê-á-Bá da Etiqueta”, com um alerta contundente à nova geração: não terceirize o seu cérebro. Embora softwares e ferramentas de Inteligência Artificial sejam excelentes auxiliares, afirma que não se pode terceirizar tudo.

O VERDADEIRO PREÇO DA LIBERDADE

Após quase meio século de estrada, seu maior patrimônio é uma reputação inabalável. Avessa a ostentações como forma de angariar clientes, afirma ser importante ter recursos financeiros para poder dizer não ao que não aprova.

O legado da advogada que carregou pedras é um antídoto contra a mediocridade e a preguiça mental. A sua mensagem é direta: recuse-se a ser a cópia polida de outra pessoa. Abrace a sua estranheza, seja combativo na defesa dos seus princípios e mantenha a sua personalidade intacta. Afinal, mesmo na era dos algoritmos, não há tecnologia capaz de superar a força de um caráter autêntico.

Ouse ser o melhor. Ria de si mesmo. Se preciso – adote um dinossauro!

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