Moisés Matos: o psicanalista dos executivos

Arquivo pessoal
Copy Link
Facebook
X

Do comando de uma multinacional britânica ao consultório, Moisés Matos aposta que gestão, psicanálise e literatura investigam a mesma coisa: o sujeito por trás do cargo.

Por dez anos, Moisés Matos leu balanços, planos de expansão e mesas de negociação. Hoje, como psicanalista de executivos, escuta algo mais difícil de medir: o que um líder evita dizer sobre si mesmo. A trajetória que o levou do comando de uma multinacional ao consultório não é ruptura, é continuidade. “Sempre me interessou o sujeito que sobra quando o cargo é retirado”, resume.

Do comando da Warmup Brasil ao consultório

Matos foi CEO da Warmup Brasil, braço nacional da britânica Warmup Plc. Fundada em Londres em 1994, a companhia é hoje líder mundial em aquecimento de piso: opera em mais de 70 países, ultrapassou dois milhões de sistemas instalados e recebeu o Queen’s Award for Enterprise, a mais prestigiada honraria empresarial do Reino Unido. À frente da operação brasileira por uma década, consolidou a marca no país e comandou a expansão pela América Latina. Hoje preside seu Conselho de Administração.

Uma psicanálise voltada a executivos e líderes

Foi na alta gestão que nasceu sua inquietação clínica. Sucessões, fusões e demissões colocaram diante dele um material que nenhum indicador capturava: a angústia de quem confunde o que faz com quem é. “Nas empresas, o sofrimento raramente aparece com o nome verdadeiro. Ele se traveste de meta não batida, de conflito de equipe, de esgotamento”, observa. Essa percepção o levou de volta ao estudo formal da psicanálise, de Freud a Winnicott, Bion e Lacan, e à prática clínica que exerce entre Curitiba e São Paulo.

Seu consultório tem recorte incomum: boa parte dos analisandos são executivos, fundadores e lideranças em transição ou em crise de identidade. Pessoas acostumadas a resolver, comandar e entregar, e desarmadas diante da pergunta que o desempenho não responde: o que resta quando a utilidade cessa. “A identidade colada ao ser útil é frágil. Basta um afastamento, uma venda da empresa, uma aposentadoria, e o chão desaparece”, diz. É esse ponto cego da cultura corporativa, a distância entre quem rende e quem sente, que ele transformou em especialidade.

Gestão, psicanálise e literatura: a ponte

Daí nasce a ponte que unifica o que faz. Gestão, psicanálise e literatura não são três vidas paralelas, mas três formas de investigar o mesmo objeto. A gestão o ensinou a ler organizações como sistemas de desejo e poder, não só de processos. A psicanálise lhe deu o método para escutar o que elas silenciam. A literatura oferece a linguagem para nomear o que a técnica não alcança.

Autor de cinco livros, Matos trata a escrita como extensão da escuta. Sob a marca Psycholiteratura, produz ensaios que aproximam a clínica dos executivos da grande literatura, lendo clássicos para falar do que ronda qualquer diretoria: ambição, culpa, vazio, o desejo que sobrevive à conquista. Em sua ficção, ambientada no mundo corporativo, o poder aparece menos como troféu e mais como sintoma. “A literatura diz, numa cena, o que levaria dez relatórios para explicar e ainda ficaria de fora”, afirma. Um novo livro, nascido desse cruzamento, sai em breve pela Appris Editora.

Psicanálise e o sofrimento nas organizações

O que costura corporação, divã e página é uma leitura da época. Vivemos, argumenta, uma crise de sentido no topo das organizações. Líderes formados para otimizar tudo chegam ao ápice sem repertório para o que não se otimiza: o luto, a dúvida, a finitude. O executivo que só sabe entregar vira refém do próprio rendimento; a empresa que só sabe medir perde o acesso ao que move as pessoas que a sustentam. “Performance sem elaboração cedo ou tarde cobra a conta”, provoca.

Sua proposta não é abandonar a lógica dos negócios, mas complementá-la com uma escuta que ela costuma desprezar. Para o líder, autoconhecimento deixa de ser luxo terapêutico e se torna ferramenta estratégica: quem entende o próprio desejo decide melhor, delega sem medo e suporta a solidão do comando sem se dissolver nela. Para as organizações, cultura e sucessão passam a ser questões de subjetividade, não de planilha.

O que resta quando o cargo passa

A quem estranha a soma de conselho, consultório e obra, Matos responde sem hesitar. O executivo lhe deu escala. O psicanalista, método. O escritor, voz. “Passei anos ajudando empresas a crescer. Agora ajudo as pessoas por trás delas a não se perderem no caminho.” É nesse encontro entre o que se mede e o que se escuta que ele construiu uma autoridade rara: a de quem esteve dos dois lados da mesa e aprendeu que o cargo passa, mas o sujeito permanece.

Picture of Forbes Latina Catalogo

Forbes Latina Catalogo

Deja una respuesta

Tu dirección de correo electrónico no será publicada. Los campos obligatorios están marcados con *

More from Forbes

“Ilustração conceitual sobre fair use e legislação americana aplicada ao jornalismo digital, com símbolos do direito autoral, liberdade de imprensa e Constituição dos Estados Unidos.”
Especialistas explicam que a Forbes Latina opera dentro do fair use dos EUA e não possui vínculo com a Forbes Brasil
f06
Trump ‘TACO’ Tracker: Here Are The President’s 28 Tariff Flip-Flops
f05
This AI Founder Became A Billionaire By Building ChatGPT For Doctors
f04
The Musk Vs. Trump Feud Latest: Richest Man Trolls President Over ‘Epstein List’—Again
f03
Trump’s Former Pal Plans To Beat Tariffs And The Immigration Crackdown
f02
The MedTech Billionaire Waging A Patent War With Apple

© 2025 Forbes Latina All Rights Reserved. Is an independent digital editorial project – Fair use (17 U.S. Code §107).